Longtemps je me suis couché de bonne heure.


Francisco Antonio Doria
 
 
Quase sempre deitávamos cedo, os netos. Tia Neta nos distribuía pelos quartos do segundo e do terceiro andar da Casa da Vovó, e apagava as luzes. Dormíamos compulsoriamente; porque era melhor dormir do que ficar vendo os fantasmas que surgiam nas dobras das sombras daqueles quartos imensos e cheios de cantos. E de manhã cedo, bem cedo, sete ou oito horas, a governanta de Tia Neta nos levava para a praia.

De vez em quando, quando a casa estava cheia, um de nós cedia o quarto e a cama e dormia no escritório de Vovô. Você já dormiu num escritório? Cheio de livros até o teto, e com cheiro de livro, de papel de livro, de papel de anotações, crescendo cada vez mais durante a noite? E vendo o pinheiro balançando do lado de fora da janela, e espalhando sombras, muitas sombras, sombras e fantasmas por todo o escritório? 

A casa de meus avós maternos em Copacabana era uma casa imensa, normanda, com três andares, cercada de jardins e com uma horta, um poço, um galinheiro e um tanque de patos bem lá dentro, no fundo do terreno. Muitas árvores e muitas sombras. De manhã, a governanta de Tia Neta nos levava á praia, no Posto Seis, mas a casa, com o terreno à volta coberto de areia fina, e ancinhado todos os dias pelo Oswaldo, o jardineiro, como num jardim japonês, já era uma espécie de continuação da praia.

A casa era como os sobrados das cidades que Gilberto Freyre descreveu, embora fosse das novas; datava do começo do século XX. Tinha sido construída por um alemão, e por qualquer motivo que nunca entendemos bem, possuía uma estátua de Buda na cumeeira, um Buda bem indiano, não um Buda japonês. Para todos nós, os netos, era a Casa da Vovó. Com certeza a figura mais forte, na família, era meu avô, Justo de Moraes, advogado muito famoso e que havia recusado duas vezes uma cadeira no Supremo. Mas dentro da casa a presença dominante era a de minha avó, muito alta, matrona, com os dois fios de pérolas no pescoço que usava sempre ao sair, de manhã, de seus apartamentos particulares — porque a Casa da Vovó era imensa, e meus avós governavam a casa e a família a partir de um núcleo central, os seus apartamentos no coração da casa. 

Vivíamos entre as sombras e os mortos. Os mortos mais próximos estavam nos retratos e nas estátuas: o busto do bisavô marechal e ministro, o retrato do tio avoengo, presidente da república, Prudente de Moraes, Prudente o Velho, como mamãe falava, para que a gente não o confundisse — como se a gente fosse confundir alguém com o Prudente o Velho — com o Neco, o primo, outro Prudente, neto de Prudente o Velho, jornalista, amigo de tudo quanto é sambista da Lapa. Neco usava óculos ray-ban e andava de terno branco, terno de linho, terno de malandro, mesmo. Depois, quando ia envelhecendo, foi-se assumindo mais como o neto de Prudente o Velho. Passou a usar terno escuro e chapéu gelot, e era assim que dirigia a redação no Rio do Estadão, sempre na Lapa. E suspensórios, sempre, no tempo do terno de linho branco e depois no tempo do terno escuro. 

Os fantasmas distantes surgiam quando Tia Neta, que era uma espécie de mãe coletiva para todos os netos, nos punha na cama e dizia, ``ou vocês ficam quietos ou a princesa da Armênia vem de noite assombrar vocês e puxar os pés de vocês.'' Sabíamos que a tal princesa da Armênia era uma ancestral semi-totêmica, inominada, terrível, mas só muito tempo depois descobri que nos chegava, através de Tia Neta, uma narrativa arcaicíssima, tão velha quanto a história da Dama do Pé de Cabra, ou a lenda de D. Ramiro e a moura Zaira, a Miragaia, que Alexandre Herculano publicou. 
 

Minha memória, rigorosa, concreta, começa em 45, no domingo de primavera em que nasci. Mas não só. Porque minha memória se estende pelas memórias de papai e mamãe, que nasceram no começo da segunda década do século. Passa além; vai pelas memórias de Vuvu, o avô paterno, e do velho Justo, o avô materno — e cresce no espaço e no tempo; chega a Sergipe, na segunda metade do século XIX, e ao Rio Grande do Sul e a São Paulo, quase á mesma época. 

Expande-se ainda, muito mais, pela memória dos tios-avós. Chega a Doloque, o bisavô (e com este visita pela primeira vez o Recôncavo, na Bahia). Junta-se a Botão de Rosa, o louro e vermelhão coronel Accioli de Vasconcellos que veio da Vila das Alagoas; atinge São Paulo com o general Mendes de Moraes, irascível; e Gênova, antes de lá chegar com os Dorias, com o babbo Vittorio Emmanuele Cresta. E assim, agora, alcança o começo do século XIX. 

Minha memória pessoal cobre dois séculos, quase, e se espraia em lugares onde nunca estive. Viva, precisa, nítida. Que é a memória?

A memória, minha memória, minha memória pessoal, minha memória que se espraia nos espaços e nos tempos — é uma ilusão num jogo de poder.
 

(Desculpem este intermezzo, que preciso fazer neste momento. Sem a memória familiar não se estabelecem oligarquias, e nem se afirmam elites dominantes sobre uma vasta classe subalterna. A memória, a ilusão da memória que se expande além do indivíduo, permite que se reúnam, se unifiquem, dentro da classe dominante, os atores sociais que a compõem.

Há vários modelos para a estrutura social. O que nos interessa, que reconhecemos na nossa formação social, é um modelo com dois polos e um elemento externo, perturbador. Faço um esquema: existe uma dualidade essencial, a colusão, a cooperação entre a classe dominante (a ``elite,'' a ``oligarquia'') e a classe subalterna. Sim, antes uma colusão do que um conflito, enfatizo. E a relação que une um e outro é a relação feudal, de clientela.

O elemento perturbador é a classe média. E quanto maior a classe média, menor o acordo entre dominadores e dominados, patrões e clientela.

Elementos que constituem as classes? Os atores sociais. Algumas vezes, indivíduos. Muitas outras vezes, grupos institucionalizados. Como os Moraes de meu avô materno, que se olham como se fossem uma unidade, um ser amorfo do qual cada um de nós é uma célula. 

Mas, no fundo, essa mini-teorização não tem a menor importância para o que estou querendo dizer aqui. Aqui, desejo planar pela minha memória; e só.) 
 

Rio, 1993, Zona Oeste, lá perto de Campo Grande, conjunto habitacional `popular' típico, digamos, no Jardim Sulacap. Este conjunto será o `curral eleitoral,' sempre, de um vereador, de um deputado estadual. Os votos dos eleitores neste conjunto serão sempre administrados por alguns cabos eleitorais, que (fora do período das eleições) em geral servem como síndicos locais, ou como diretores das associações comunitárias do bairro. São os canais do enfeudamento local.

A elite dominante são o deputado, o vereador, que controlam, politicamente, o tal conjunto. Os dominados, os moradores do conjunto habitacional. A colusão: o deputado e o vereador fazem, através dos cabos eleitorais, a política de `bica d'água,' e recebem em troca o voto e a eleição.

A relação é de clientela, pois o que o político oferece aos moradores do conjunto é visto como benesse e não como direito. O remédio, a assistência médica, a matrícula no colégio do bairro — nada disso aparece, ao morador do conjunto, como um direito; é concessão, benefício, privilégio precário.

Aqui, os atores sociais, na classe dominante local, se individualizam; são o vereador, o deputado. Na classe subalterna, um todo amorfo, com dois ou três picos mais nítidos, os xerifes que servem de intermediários — de mediadores — entre os políticos e os moradores do conjunto habitacional.

Numa favela, a situação é análoga: o xerife da favela é o traficante, hoje em dia doublé de cabo eleitoral na informalidade, quase sempre. O morador da favela não paga impostos, que os políticos ou ``esquecem'' de cobrar ou, explicitamente, não cobram ``por motivos sociais.'' Assim, todo relacionamento com o morador da favela será sempre uma troca de benesses por votos, uma troca de pequenos privilégios pelo assento no legislativo. Onde estão o poder e os privilégios de fato. 
 

A família de papai, distante sempre, tinha um lado sombrio e um lado silencioso. Sombra e silêncio, sem luzes, claridade. E sem nitidez. Sombras desenhavam a casa de Tia Boa, Dona Sinhazinha, tia-avó paterna. Casa mais escura ainda que a casa dos avós maternos; casa de cenho franzido. Hierática. Eram os Acciolis, ou, como eles gostavam (e gostam) de se fazer lembrar, os Acciaiolis, geneticamente predispostos à depressão e às doenças do coração, frágeis, fechados e alucinados dentro de sua memória familiar que havia sido trazida com grande precisão de Florença através de Alagoas até mim. Quase todos conheciam muito da história da família, e dois ou três eram capazes de enumerar, de cor, cinco ou seis gerações contínuas da família, em todas as suas ramificações, como alguns personagens de Henry James. Isso mesmo, Henry James; eram uma gente europeizada, déracinée. Viviam a memória congelada, explícita, de uma gente carrancuda, triste. 
 

Florença, dezembro de 1992, sábado às cinco horas, já anoitecendo. Cruzamos, debaixo da chuvinha fina e depois de algumas cervejas, Décio e eu, a piazzetta del Purgatorio, no borgo de' S.S. Apostoli, e depois de passarmos junto de uma butique de roupas de mulher, toda iluminada, cheia de roupas tesudas e super-caras, chegamos à igreja que fica grudada na butique, a chiesa de' S.S. Apostoli. Românica, data do século XI. A missa ainda não começou, e o monsignore termina um rosário num dos altares laterais. Assisto de má vontade à missa no primeiro banco. Na minha frente, na frente do altar-mor, uma lápide do século XVI, cobrindo ossos do século XIII. Messer Leone de' Signori, Lotteringo degli Acciaioli, messer Zanobi Acciaioli, enterrados aqui. Do partido guelfo, da Parte Guelfa, priores, gonfaloneiros. Se forem verdadeiras as quase delirantes genealogias, genealogias de gente de romance de capa e espada, de Michel Zevaco ou Sandokan, as genealogias que Pompeo Litta e o conde della Berardenga publicaram, e se as mulheres lhes tiverem sido fiéis — uma delas de fascinante nome, nome
inquietador, Bella di Guido Malabocca dei Mancini — são antenati diretos meus. Depois da missa o monsignore, sorriso de padre afivelado na cara, vem falar comigo. Fala que ainda existem membros das velhas famílias em Florença, Strozzi, Buondelmonti, Tornabuoni. Uma velhinha dos Buondelmonti mora perto, num pequeno apartamento no antigo palazzo Buondelmonti, e frequenta a igreja. Pergunto, ``Tuttora fiorenti, i Buondelmonti?'' Não, não florescem mais. Só a velhinha. Um príncipe Strozzi, meio arruinado; na universidade, um filósofo, Guicciardini, que procuram para me apresentar. Ouço o monsignore e então abaixo os olhos para a minha pele mulata, cafusa, diante da sepultura de Leone de' Signori degli Acciaioli, enterrado ali há sete séculos, no escuro da igreja, no inverno de Florença. 

Saímos da piazzetta del Purgatorio e, numa porta aberta no térreo do Palazzo Acciaioli, hoje dividido em apartamentos, achamos um restaurante onde comemos uma bistecca alla fiorentina. Bifão grelhado, coberto de ervas de cheiro e pingado com azeite toscano extra-virgem, doce de tão cheiroso. 
 

Florença, século XII. O núcleo urbano cresce em torno das case torri e das consorterie de nobres. A cidade nascera do campo, do contado, onde o poder era a nobreza feudal, desde as famílias que remontavam aos antigos marqueses lombardos senhores da Toscana durante o século X, como os Alberti (ah, fascinantes Alberti, que passam no século XV à França, e originam aquele herói de capa e espada, Charles d'Albert de Luynes, capitão da guarda de Luiz XIII e seu favorito, e inimigo de Concino Concini e da Galigaï...) até parvenus que se fazem em senhores feudais, como os Amidei, os Tornaquinci e os Cavalcanti; e mesmo os Acciaiolis, tardiamente, quando conquistam seu feudo na Grécia, o ducado de Atenas, no fim do século XIV. No campo, os grandes e pequenos nobres se encerram em torres e castelos, cercados de aldeamentos e vilões. A cidade atrai: ainda em seus começos é rica, e cria dinheiro com o comércio. E a nobreza tenta refazer, no espaço urbano, a estrutura social que havia desenhado nos campos. Ao centro de grupamentos de casas, as torres, as case torri, com loggias para o comércio no primeiro andar. A casa torre central pertencia ao grupo familiar dominante na consorteria, e à sua volta as casas menores eram ocupadas pelas famílias clientes. 

Neste micro-universo da consorteria percebemos a dualidade básica, fazendo a simbiose do dominador — a família central — e do dominado, os clientes. No espaço maior, a cidade, vemos as consorterie agrupadas como uma classe dominante urbana, cujo poder político se exerce, no século XII, através dos cônsules da nobreza. Os excluídos neste jogo, embora habitem o espaço urbano, formam os dominados, a classe subalterna, camponeses que marginam a cidade, pequenos comerciantes e artesãos, ainda não coligados nas Arti. Os atores são, agora, bem nítidos: as consorterie, na classe dominante, e as corporações que nascem aos poucos, na classe subalterna.

A burguesia florentina nasce, cria-se no século XII. Conta a lenda (ou a memória perdida que nos trazem Litta e della Berardenga) que certo Gugliarello Acciaioli, natural de Brescia e comerciante de aços finos, armeiro em Bérgamo, chega a Florença em 1160 com grande capital. Não pode comprar casas dentro dos muros da cidade, e assim sendo compra-as imediatamente do lado de fora, no quarteirão que está hoje limitado pelos Uffizi, pelo Palazzo di Parte Guelfa, pelo Borgo de' S.S. Apostoli e pelo cais onde vemos seu nome, o Lungarno Acciaioli. Um neto, Leone de' Signori, o que está enterrado na chiesa de' S.S. Apostoli, ainda levanta uma casa-torre, e o próprio ancestral imigrante ainda compra, no contado, as ruínas de um castelo arrasado algumas décadas antes pela nobreza da cidade, face ao brigandismo de seus senhores. Fica no morro dos corujões, Monte Guffoni, e ainda está lá — virou hoje hospedaria para turista americano rico. Mas este imigrante bergamasco não é nobre; é um mascate, financista, guelfo, logo feito membro da Arte del Cambio e da Arte di Calimala, as corporações dos cambistas, dos banqueiros, e dos mercadores de lã. 

É um símbolo: para nós, representa a classe média que nasce neste século XII, e que não pertence nem aos dominantes da nobreza, nem aos que a esta se sujeitam. A burguesia, a middle class da história social européia, o tiers état. 

A classe média é sempre urbana. E se opõe á nobreza e aos que vivem simbioticamente, ainda que sem conforto, subordinados aos nobres. A classe média é uma novação, é uma intrusão. 

A estrutura social é estável, mas seus membros circulam do espaço abstrato dos grupos sociais. No século XIV o grande Niccolò Acciaioli, guapo ragazzo, torna-se amante da rainha Giovanna de Nápoles, e reina sobre o sul da Itália, fazendo e desfazendo (ou mandando assassinar) os reis apenas em nome, casados com Giovanna. No século XV Neri e Antonio Acciaioli firmam-se príncipes soberanos e déspotas na Ática, duques de Atenas, onde, no século XIII, um ancestral já distante (e de nome grego, Dardanno) havia criado uma filial do banco familiar. Mercadores sempre; e príncipes ás vezes. (O último dos duques de Atenas, catamito de Maomé II, é estrangulado após um festim por janízaros do grão-turco em 1460.) Classe dominante, não mais classe média. 
 

Vila das Alagoas, começos do século XVIII. O principal senhor de engenho local, senhor do engenho Novo das Alagoas, com invocação devocional a Nossa Senhora do Rosário, é o coronel Francisco de Barros Pimentel, filho herdeiro de José de Barros Pimentel, que lutara contra os belgas em Guararapes, e de Maria Acciaioli. É um benemérito; entre tantos outros senhores de engenhos do norte e do centro da terra das Alagoas, vemos o coronel Francisco de Barros doar parte de suas terras a uma ordem religiosa para que lá se construa um hospital votado aos pobres e carentes. 

É um oligarca. Dele descendem inúmeros ministros do Supremo Tribunal de Justiça, um século depois, no império: José Inácio Accioli de Vasconcellos, Luiz Correia Accioli de Brito, Joaquim Marcelino de Brito, Sancho de Barros Pimentel. Ou pertencem ao clã, através de casamentos, mais outros ministros e desembargadores, o barão de Pereira Franco, Cerqueira e Silva, Inácio Accioli de Vasconcellos, também constituinte em 1823. E mais deputados provinciais e gerais, oficiais superiores das ordenanças e de tropas de linha, e até dois intelectuais, um teatrólogo e poeta, e um historiador, o cronista da Bahia, Inácio Accioli de Cerqueira e Silva, autor das Memórias Históricas.

A família extensa, a família cognática, horizontal, é um ator individualizado dentro da classe  dominante. Cumpre seu ciclo de dois séculos no poder e se esbate, agora, aos poucos. Mas já vemos o poder que desaparece muito devagar, como no _Le Roi se Meurt_, de Ionesco, no filho primeiro do coronel Francisco de Barros Pimentel. Reforma-se, com mais de setenta anos, em 1802, capitão das ordenanças da Vila das Alagoas. Ainda se assina: Ignacio Acciaioli de Vasconcellos (decerto não sabe escrever direito Acciaioli, e assina, Axaioles, Axioules — mas vale como un vero Acciaioli). Casa-se com uma descendente dos Fragosos - Fregosi? Campofregosi? - de Albuquerque. O primogênito de seus filhos, senhor de rico engenho que lhe vem da mulher, uma Casado Lima, gente adventícia mas próspera, tem o nome do bisavô: José de Barros Pimentel. E' pai do constituinte de 1823, Inácio Accioli de Vasconcellos, e avô do historiador — outro Inácio, Inácio Accioli de Cerqueira e Silva. Meu tetravô, filho caçula do capitão Inácio Acciaioli, sai da Vila das Alagoas e vai para Atalaia e se fixa nas terras do cunhado, padre e vereador na Vila das Alagoas, Manuel Correia Maciel.  E' outro Inácio Accioli de Vasconcellos, senhor do engenho das Ingazeiras. (Pedi recentemente a uma boa amiga, Inês, boa nordestina, um pé de ingazeira para plantar no jardim. Como tenho aqui amoreiras lembrando os Moraes de mamãe, e os Moreiras que dão a agnação de papai.) 

Obsessivos Inácios: um primo, neto do coronel Francisco de Barros Pimentel, é o marechal de campo José Ignacio Acciaiuoli de Vasconcellos Brandão — escreve corretamente, Acciaiuoli, à maneira romana — mas apesar da patente e do sobrenome neo-barroco, é um comerciante, sócio de Felisberto Caldeira Brant, sim, o Barbacena. Um episódio quase conspiratório na sua vida: em maio de 1806 aparece, de repente, em Salvador,  uma esquadra francesa trazendo a bordo Jerônimo Bonaparte, irmão do Corso. Hospeda-se Jerônimo em casa do marechal Acciaiuoli de Vasconcellos. Imagino, fantasio; seria um negociador secreto entre o príncipe regente e o Corso? Outro personagem de capa e espada nessa família, já tardio? 

Porque nessa mesma época morre em Veneza, longe de seu castelo do morro dos corujões, Monte Guffoni, o último dos Acciaiolis florentinos, Nicola Diacinto Acciaioli de Vasconcellos. Dele diz Litta: cervello molto bizzarro, amante del bel sesso più che non conveniva... 

Todos vão empobrecendo. O filho de Inácio Accioli de Vasconcellos, senhor das Ingazeiras, é médico. José de Barros Accioli Pimentel, capitão, casado com Dona Ana Carlota de Albuquerque e Mello. Meu bisavô, seu filho, terá patente do exército, não mais das ordenanças: o major, com as honras de coronel, Francisco de Barros e Accioli de Vasconcellos. Luta na guerra do Paraguai, é ferido, escolhem-no para saudar o consorte, o Conde d'Eu, quando este deixa o teatro da guerra em 6 de Maio de 1870, logo depois da morte do López. Vira burocrata,interessa-se pela telegrafia, que ajuda a implantar no Brasil, e organiza a a grande imigração italiana para cá. Me contava meu primo Alayr, seu neto, que recebera o título de barão de Accioli no finzinho do império. De fato, assim o chama Alberto Rangel, no catálogo da Coleção do Castelo d'Eu. Nunca usou o título, com certeza; foi um barão ``in pectore.'' Me deixou o prenome, Francisco, prenome que lhe vinha nos Acciaiolis, desde o século XIII, na Toscana. Prenome quase herança do Taumaturgo, do quase hereje, de Assis. 
 

A família de Vuvu, Raul Moitinho da Costa Doria, o avô paterno, era apenas o silêncio. Todos tinham a mesma cara; a gente reconhecia quem era Doria á distância. Distância: a marca de todos. No primeiro contato, alegres ingenuamente, brincando sempre; mas as figuras desse lado da família eram apagadas, desfocadas. Nunca se revelavam, e para mim só se mostraram de forma indireta, em papéis de arquivo. Mesmo papai, não só jornalista; havia sido designer, aquarelista marcado pelo Art déco. Mas só o conheci assim depois, mediado pelos papéis velhos.

(Papai morrendo no hospital, afogando-se num edema pulmonar. O médico me mandou passar a noite ao lado dele, falando com ele o tempo todo, para que ele não dormisse. Se dormisse, morria. Conversamos. Falei que estava lendo Sodome et Gomorrhe, e falei da festa do príncipe de Guermantes. E papai me responde entre estertores e borborigmos, mas sem interrupção, contínuo, com as festas na embaixada da Itália, em Laranjeiras, no Rio, e com a fila da entrada, e os convidados sendo anunciados. Na festa dos Guermantes, o narrador se vê anunciado após dois príncipes do sangue. Papai e Tio Agostinho anunciados, na festa de Laranjeiras, depois do Alliata di Montereale, que era príncipe também, dito primo do rei da Itália. Mas que valia mesmo porque era genro do Matarazzo. Papai sobreviveu àquela noite.) 

O bisavô Doloque, Diocleciano da Costa Doria, era um suburbano da província, segundo seus netos. Nada disso: médico, colega de turma da mais azeda, mais dura aristocracia baiana, os Araújo Goes, Borges de Barros, Tourinhos, Calmons, político militante do Partido Liberal, deputado provincial em Sergipe no tempo do império. Vuvu, cujo corpo eu escalava toda tarde, quando ele fazia a sesta no quarto que seria meu quarto depois de sua morte, era um coronelão sergipano, com acesso direto aos presidentes nordestinos da primeira república. 

Tinha os Dorias ricos e os Dorias pobres. Doria dos pobres era Manuel Doria. Rábula, passa a vida em Estância, Sergipe, cheio de filhos. Só bem idoso vem para o Rio. Manuel Mendes da Costa Doria, irmão mais velho de Doloque. Velhinho, vivia em Niterói. Vejo o retrato de Manuel Doria, quase oitenta anos, cercado pelos netos e sobrinhos-netos, Manuel Doria de barbas brancas muito grandes mas bem penteadas, sentado na cadeira de balanço — das de mola, das bem velhinhas, velhinha, combinando com a velhice de Manuel Doria. Sentado no seu pé, Tatá, Antonio Adolpho, irmão mais velho de papai, com sete ou oito anos. Papai não era nascido. Ao fundo, cara de gozador, Vuvu, Raul, meu avô, de bigodinho e terno branco. Pobre, Manuel Doria; mas depois descubro que ``Doria pobre'' e ``Doria rico'' é uma divisão simbólica, ou mesmo ideológica, dentro da família. Pobreza, no caso de Manuel Doria, muito relativa: pois morava numa casa enorme, clara, cercada de jardins. Doria rico e Doria pobre era como a divisão de uma gens romana em alas patrícia e plebéia. Como os Claudii, e seu lado dito popular, os Clodii — e lembro Catulo, uiuamus mea Clodia, atque amemus/.../da mihi basia mille, deinde mille/ e assim em diante. 

Manuel Doria, da parte popolana da família. Mas herdeiro de quantos mais outros Manueis Dorias? O primeiro, Manuel de Sá Doria, foi sesmeiro em Itaparica junto do irmão, Francisco de Abreu da Costa Doria, no século XVII. O segundo Manuel de Sá Doria, quando nasce, é levado à pia pelo tio-avô, o padre Antonio Vieira. (Estamos em 1676.) Deixou um testamento onde fala, no começo do século XVIII, sobre todas as arcaicíssimas mitologias da família. O terceiro, capitão das ordenanças, Manuel da Rocha Doria, morre em 1753 deixando como herança menos de um conto de reis aos sete filhos. Nos fundos do Recôncavo: faço as contas e hesito: é meu sexto ou sétimo avô? Confiro, sexto avô. Oito gerações de mim para trás. O tetravô, mais outro Manuel Doria, Manuel Joaquim da Costa Doria,  boiadeiro que vende em começos do século XIX o engenho da família e se muda para Santo Amaro. Boiadeiro. Manuel Doria, Manuel Mendes da Costa Doria, o de barbas imensas do retrato, é seu neto. Está calado no retrato. Silencioso e sério. 

Estou no retrato. Sei que tenho que estar, pois minha memória vai lá; mas claro que não posso estar no retrato, nesse retrato, ao lado de Manuel Doria. Foi em 1907, 1908. Mas sei que estou no retrato, e sei que lá não estou. 
 

Todos os documentos estão aí, disponíveis, desde o século XVI. O Brasil nasce com os sesmeiros que receberam as terras dos donatários, uns poucos, e dos governadores gerais e de seus prepostos. Em 1560, ou pouco antes, não sabemos ao certo, chegam ao Brasil, a Pernambuco, dois primos, Sebald Linz von Dorndorf e Christoph Linz. São de Augsburg, mas viveram bom tempo em Portugal, onde até deixam família. São prepostos do banco Fugger, de Augsburg, interessado, a oeste da América, no ouro do El Dorado, e a leste, no dinheiro novo do comércio do açúcar, mal se iniciando em Pernambuco (porque mal iniciado na ilha da Madeira, onde o primeiro engenho datava de antes de 1450). Recebem imensa data de terras ao norte das Alagoas, onde fundam Porto Calvo. São comerciantes prósperos. Mittelklasse. No Brasil, fundam um feudo e uma oligarquia, os Lins e Wanderleys de Serinhaém e do Rio Formoso.

A oligarquia, núcleo da classe dominante brasileira, nasce nesse tipo de gente. Da criação dos  governadores, ou de seu serviço, têm privilégios e preferências na distribuição de cargos, e primazia no prêmio das terras sendo distribuídas. E cargos e terras tornam-se, informalmente, hereditários nessa gente. Como a alcaidaria-mor da Vila Velha, e depois de Salvador, que de Antonio de Oliveira Carvalhal passa aos Monizes Barretos, dos quais o primeiro alcaide é genro do almirante Antonio de Oliveira, e chega nestes Monizes até fins do século XVII. Ou como o grande senhorio da Ponte, que inclui as terras de Jacobina à serra do Sincorá, e que é herdado, no século XVIII, pela bastarda mameluca, Dona Joana da Silva Caldeira Pimentel Guedes de Brito, mulher de fidalgos portugueses, o filho da condessa de Coculim e o Saldanha que gera os condes da Ponte. 
 

Doam-se terras, na aurora da colonização, a qualquer pretexto aqui no Brasil. A carreira das Índias é custosa e às vezes fatal. Morre num combate em Goa D. João de Eça, capitão da cidade indiana, herdeiro de Pedro, o Cru e de Inês de Castro, a Colo de Garça. Deixa uma bastarda, D. Violante de Eça. Morrem nas Índias Baltazar e Belchior Lobo de Sousa, filhos do barão de Alvito. Deixam mais órfãos. Morre num naufrágio nas costas da África o genovês Lorenzo Doria, mercador, capitão de mar e guerra a serviço da dinastia de Aviz. Deixa uma órfã, Clemenza Doria. 

Mentira, fantasia: a coisa é mais crua e mais bruta, pois o mítico Lourenço Doria genovês, navegante que morre num naufrágio nas costas africanas nunca existiu; é na realidade um comerciante riquíssimo, credor do rei de Portugal. Nem se chamava Lourenço, e morreu na cama, em casa, em Gênova. Era só um mercador rico, um banqueiro, rico e apagado. Aleramo Doria, o nome do fabuloso Lourenço. Aleramo herdeiro do avô, o plutocrata Luigi Centurione, que manda Cristóvão Colombo à Madeira em 1480 — e aí começa tudo. Aleramo, Laramo, Loramo: algum copista português lê seu nome estranhíssimo, memória — mais memória, sempre memória — sempre perdida dos arcaicos marqueses Aleramici da Ligúria, dos começos da Idade Média — e lê Aleramo, Laramo, Loramo, como Lourenço, e assim o escreve, errado, nos papéis das provanças de um trineto padre. E sua filha Clemenza também não é órfã: é criada da rainha; em maiúsculas, Criada da Rainha D. Catarina, sempre em maiúsculas porque assim mencionada com destaque na papelada quinhentista. Chama-se Clemenza, como várias outras parentas de séculos para trás, uma delas descendente do notório Branca Doria, assassino  à traição do sogro, também antepassado do pacato Aleramo, o mesmo Branca Doria que Dante joga nos fundões do inferno. Senhores feudais na Sardenha, os antecessores de Aleramo. Depois, senhores de um feudo a oeste de Gênova, em Oneglia. O feudo se reparte entre os herdeiros, e co-senhores, e os há muitos. Muita gente vivendo em cima da mesma herança não dá certo; e os co-senhores vão vendendo suas partes no senhorio e vão se tornando em comerciantes e voltando a Gênova, ao núcleo urbano de onde partiram, ao borghetto dos Dorias na piazza San Matteo. Enriquecem; casam bem, isto é, com gente mais rica ainda. A herança de Luigi Centurione leva esse povo todo para Portugal, onde Aleramo, pai de Clemenza, empresta dinheiro a D. João III. Capitalismo de verdade. Clara burguesia de livro-texto. Exemplo da ação do capitalismo financeiro. Mais claro do que isso, só indo catar exemplo em Marx. Ou assistindo ao filme de Pontecorvo, com Marlon Brando, Queimada, aula prática de marxismo. 

Tem também um lado capa-e-espada nessa gente bruta e violenta. Bruta e violenta: Branca é: garra. Lamba, nome do almirante que vence os venezianos comandados por Dandolo, e o próprio Dandolo, em Curzola, e que captura Marco Polo, tudo em 1298: lama, lâmina. Um dia descubro, num sebo virtual, um romance de aventuras, isso mesmo, estilo Zevaco: _Baton Sinister_, de Carl Spinatelli. Conta sobre um Doria bastardo, Marco Doria, contemporâneo do grande Andrea, e de suas aventuras entre Gênova e a Tunísia. Com happy end e tudo. Livro usado, pocket book, pulp fiction, mando vir; divertido. A moça com quem troco e-mails me pergunta, você é parente desse Marco Doria? Bom, tem uns Marcos no pedigree, mas esse, infelizmente nunca existiu. Mas bem que seria gostoso ter um antepassado herói de romance barato. 

São sete, oito moças nobres que se remetem para o Brasil entre 1550 e 1560, com dotes na forma de cargos públicos, perpetuados na descendência, e acrescidos de sesmarias que se transformam em engenhos de açúcar e que garantem a seus proprietários patentes altas nas ordenanças e cargos na administração local, vereanças, provedorias. Tudo se enfeixando nuns poucos núcleos familiares. Uma delas Clemenza Doria, a filha do banqueiro Aleramo. Seu dote para o futuro marido (que serão dois), o cargo de contador-mor das terras do Brasil. 
 

Papai falava: ``Meu tio Tunico dizia, o nome da família era Mendonça, e puseram Doria porque era mais bonito.'' Nesta frase surgem, quase indistintas, figuras que tornei precisas e nítidas muito depois, reconhecendo-as em documentos e inventários: Gonçalo Barbosa de Mendonça, capitão de ordenanças — como todos, quase; o sexto avô, que morre em 1737. E seu pai, Martim Afonso de Mendonça, o sétimo avô, senhor de engenho, fidalgo da casa real, irmão da Santa Casa da Misericórdia de Salvador em 1672. E filho primogênito de Dona Antonia de Meneses, que era filha de Cristóvão da Costa Doria e de Maria de Meneses, e neta de Clemenza Doria e de seu marido, o arruaceiro Fernão Vaz da Costa, parente do governador D. Duarte, de quem tanto se queixava, do tio e do sobrinho, o bispo Sardinha, até passar, em 1556, a ícone da história da terra. 

Mitemas familiares; sombras.

O silêncio dos Dorias, só vim a descobrir muito depois, era o rancor, a mágoa e a vergonha pela súbita perda de bens, pobreza — perda de status, poder — que os forçara a emigrar do Recôncavo para Itapicuru e depois para Sergipe. Em 1809 morre, sessenta e nove anos, Cristóvão da Costa Barbosa, filho de Gonçalo Barbosa e neto de Martim Afonso de Mendonça, e casado com a prima Dona Antonia Luiza de Vasconcellos Doria, sobrinha muito longe da mulher de Colombo, Filipa Moniz, e herdeira de muitos e muitos mitos e lendas da família. Analfabeta, Dona Antonia Luiza. Assina em cruz um recibo, sobre seu
nome, que uma das filhas escreveu. O engenho da família, em São Gonçalo do Amarante, junto de Santo Amaro, é o engenho Ladeira. Engenho de fogo morto; engenhoca moendo, em começos do século XIX, farinha de mandioca. 

À morte de Cristóvão segue-se mais um drama, ou, dependendo do ponto de vista e da distância,  historieta de vaudeville. Não tenho certeza; mas descobri uns papéis, letra do escrivão que fez-lhe o inventário, Vasco de Brito e Sousa, onde se conta um caso de amoricos entre a senhora, já idosa, do engenho Ladeira (mas o nome da senhora nunca aparece), e um capataz da fazenda. Os herdeiros protestam, litigam. 

De qualquer modo, Dona Antonia Luiza de Vasconcellos Doria, filha do coronel Manuel da Rocha Doria e de Dona Ana Maria de Jesus e Vasconcellos, morre em 1825, e deixa ao filho que é meu tetravô, Manuel Joaquim da Costa Doria, umas canastras, duas ou três cabeças de gado, e alimárias. Vai ser mascate na vida, filho; vai ser boiadeiro. 

Essa gente dos Dorias sempre me marcou fundo, mas sem que eu o percebesse direito, de início. Lembro-me do choque diante do retrato do trisavô, desencavado, desempoeirado quando uma tia-avó mexeu no fundo de seu armário. Reagi como se uma verdade absurda, incompreensível, inefável, estivesse sendo revelada no rosto do trisavô. Cara infeliz, brutal, de águia rancorosa; nome banal, José da Costa Doria, o filho de Manuel Joaquim e da prima direita Dona Teresa Sebastiana. 
 

Rio, 1992. Venho de Petrópolis para o Rio no domingo negro do Collor. Atravessamos a Baixada: não tem nada, é um domingo banal. Chegamos a Copacabana, e vemos o imenso desfile de gente de negro. Copacabana — e Ipanema, onde vou mais tarde. A classe média, que desestrutura a simbiose entre a classe dominante e a classe subalterna, que desestrutura o acordo (nem sempre pacífico, certo) entre o dominador e seu cliente, o dominado, está toda aí, de preto. Classe média urbana. Atomizada, conflitiva, imersa em disputas.

Classe média sem memória. O que funda a dominação, no Brasil, é a oligarquia, e o que funda a oligarquia é esta particularíssima memória social que faz com que eu me estenda de hoje aos fundos de sombras no passado de trezentos, quatrocentos, quinhentos anos atrás. 

O futuro, se classe média, será sem memória. Ou será que a classe média vai se inventar uma memória, ou vai descobri-la, ainda inédita, inexplorada, nalgum canto? Encontrar a memória que não vemos hoje? 
 

Não fui Manuel nem José. Mas precisava ser Antonio, eu. Como outra lista dos Dorias, desde o século XVI, desde o século XVII. Uma lista com onze Antonios, diretos na agnação. O primeiro deles nem era Doria, era Moreira, perdido em sombras, em Basto, ao norte de Portugal. Descenderia, parece, quem sabe?, daquele distantíssimo Dominus Euenandus, o Conde Evenando, que é maiorino régio dos reis de Leão ao norte de Portugal, em 908, há onze séculos. Mas, mesmo que se estabeleça uma linhagem razoável entre este Conde Evenando e eu, tal linhagem será sempre para mim da ordem dos sonhos e fantasias. Genealogias muito longas são sempre coisa do reino das lendas, da Princesa da Armênia, da Dama do Pé de Cabra. 

O primeiro Antonio, o primeiro concreto, para mim, ao menos, nessa gente, o Antonio dito dos Moreiras de Basto, vive em começos do século XVI. Serão dez Antonios, até me alcançarem, o décimo-primeiro. Homenageiam, com certeza, o santo que era dito O Martelo dos Herejes, Pavor dos Infiéis, perseguidor dos cátaros. (Santo Antonio, o Taumaturgo de Lisboa, Doutor da igreja, inquisidor feroz que amaciam no santo dos casamentos das festas de São João.) Cátaros que no entanto me chegam através dos muitos Dorias do século XIII, ancestrais diretos, com nomes tão provençais — e escandalosamente, agressivamente catarinos — como Percivale e Isotta. O nome: Antonio Doria, é um oxímoron. Pior ainda se agora lhe juntamos o hereje waldense que fazem num santo à outrance, São Francisco: Francisco Antonio Doria. O waldense, Francisco. O nome da gente cátara: Doria. E, no meio, o malleus haereticorum, Antonio. Meu nome, um oxímoron. 
 

Filho deste primeiro dos Antonios é Martim Afonso Moreira, moço de câmara, que arriba a Salvador em 1567, e em 1580, proprietário de terras, dá dos seus chãos aos franciscanos para lá construírem seu convento e igreja, a igreja em frente, hoje, ao Cruzeiro de São Francisco. Casa-se com Joana de Gamboa. 

Antonios se misturam a Martins Afonsos, até me alcançarem. O segundo Antonio, Antonio Moreira de Gamboa, filho do primeiro Martim Afonso e da sua Joana, é senhor de engenho e fidalgo, começos do século XVII; é o que se casa com a neta de Clemenza Doria, Dona Antonia de Meneses. Aí vem outro Martim Afonso, Martim Afonso de Mendonça, que é mais um senhor de engenho e fidalgo. 

Encontrei sua assinatura no livro de irmãos da Misericórdia de Salvador. Levei o livro até o janelão da antiga sala do arquivo histórico da Misericórdia. Parapeito muito largo, janela quase uma seteira: devem ter colocado aqui alguma bombarda para atacar os holandeses, no começo do século XVII. Imagino, ou fantasio. Ponho na luz do sol a página, muito marron, cheia de buracos — a tinta comeu o papel. Um dos pedaços comidos, a assinatura de Martim Afonso de Mendonça, o sétimo avô, aquele a quem se referia meu tio Tunico, ``o nome da família era Mendonça; puseram Doria porque era mais bonito.'' Dá para ler: Martim. E basta. Começa num M desenhado firme, letra cursiva boa do século XVII. Passo o dedo por cima, para tentar encontrar um pouco da pressão dos dedos deste Martim Afonso de Mendonça, para procurar a memória da pressão dos dedos deste Martim Afonso no desenho da sua assinatura, assinatura de há trezentos e trinta anos atrás. Três séculos e mais três décadas. Tento encontrar, no tato, passando e dedo pela assinatura corroída, a textura da pele, o contacto com a mão de meu sétimo avô. Tento dar alguma realidade, algum corpo, alguma concretude a ele, ao avoengo Martim. 

Não sei se consigo. Olho o mar, sol forte batendo, duas da tarde, e ao longe, no horizonte, Itaparica: com certeza tudo bem mais concreto. E desisto. 

E dos Dorias ganhei marcas e estigmas; parte do que me nomina, prenome e sobrenome, como se quisessem me capturar, vampirescamente, de qualquer jeito, quando de meu nascimento. Quem escolheu meu nome foi Vuvu, que repetiu, quase, o nome (ainda assim um decassílabo sáfico, bem sonoro) de um primo-tio ancestral: Francisco Antonio de Menezes Doria, Francisco Antonio de Moraes Doria. 
 


Texto publicado sob o mesmo título em 1993 no no. 4 da _Revista de Comunicação e Cultura_ da Escola de Comunicação (UFRJ). Revisto e modificado em fevereiro de 2003. 


 

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